segunda-feira, 13 de outubro de 2008

“Adaptação Margem” Florencia Rodríguez Giles

Teleirrealidade

Sem dúvida, trata-se de uma galeria, normalmente um espaço retangular, amplo, industrial e silencioso - o melhor lugar para deixar-se arrebatar pelas quinze imagens de Florencia Rodríguez. Esta jovem artista (Buenos Aires, 1978) surpreende e causa impacto com sua charmosa, sinistra e misteriosa proposta.

Como já dissemos, a galeria de arte é um lugar (um não-lugar) que, felizmente para alguns e infelizmente para outros, quase nunca sofre de amontoamento. Um lugar semelhante às pequenas residências nas quais Florencia Rodríguez situa uma ação. Nas quinze imagens, fotografias preto e branco manipuladas, que a artista apresenta na exposição intitulada “Adaptação Margem”, sempre acontece alguma coisa. A paisagem é a mesma em todas elas: um quarto abandonado, a pintura das paredes esfolada, o teto rachado e o vidro das janelas quebrado.

Sobre estas ruínas de edifícios modernos (a artista escolheu uma fábrica abandonada), a presença de uma natureza exuberante dá à imagem um primeiro gesto impossível, de una primeira ficção. Este fato poderia ser assimilável. Não o é, entretanto, a presença dos habitantes. Uns seres humanóides, vestidos com túnicas, pertencentes a um outro tempo e a um outro espaço. Alguns com penteados estranhos, outros completamente carecas. Têm em comum um certo medo; refletem em seus rostos o anúncio do perigo, o suspense de uma tragédia; mas, ao mesmo tempo, uma tranqüilidade inquietante, uma calma aterrorizante.

Em cada uma das quinze instantâneas, manipuladas digitalmente, esses seres oníricos realizam uma dramaturgia diferente. Não se comunicam através da fala. Há uma espécie de mímica ilógica e quase imperceptível que os une, um idioma diferente do nosso. Nós, os visitantes d’este mundo, observamos, também mudos, essa comunidade marciana. Vemos como se preparam para um desastre na escuridão, no refúgio de um edifício recolonizado. Somos espiões, testemunhas da luta deles graças à disposição coreográfica que Rodriguez alcança: um espaço central sempre vazio, indicado para ser ocupado pelo visitante. A técnica também busca o realismo. As imagens foram fotografadas de novo em uma tela. Portanto, a certeza de que estamos assistindo a uma imagem gravada em câmera nos faz pensar que a cena realmente aconteceu. Como se fosse algo capturado por uma câmera de segurança ou por um vídeo amador que congelou um acontecimento paranormal. Nas palavras da própria Florência, “interessa-me que as imagens estejam ainda mais mediatizadas e que suas procedências sejam duvidosas para fazermos associações com fotos de anomalias, de óvnis, deformações etc.”, uma espécie de teleirrealidade fantasticamente real e próxima.

O embrião da série “Adaptação Margem” se constitui de um conjunto de desenhos e palavras que começaram a tomar forma graças a um sexto sentido. Talvez Florência veja seres que realmente existem e só ela vê (lembrem-se da imagem mil vezes parodiada da criança escondida na cama – “há momentos em que vejo mortos”). A partir dos esboços e das vozes da artista, já em sua faceta sobre-humana, ela começou a “materializar, sem saber em que iria transformar: objetos, tartarugas, montanhas de cabelo humano, ferramentas, roupas, pedaços de madeira. Organizei o universo da comunidade e esperei”.

Fruto dessa espera são os seres (que ela chama de “comunidade”) com duas cabeças, penteados impossíveis, envoltos de uma atmosfera tão sólida que parece uma presença a mais.

Compreender esses estranhos habitantes de semblantes assustados, parecidos com humanos, acompanhados de cachorros, parece-nos complicado. A ficção sugere a fábula na mente do voyeur, que é parte determinante para finalizar a obra desta artista. Imaginamos a história dessa espécie de seita pagã, fugindo de algo ou de alguém, refugiando-se em casas abandonadas, escondendo-se também da luz, um brilho que cega, que cobre tudo lá fora e que ameaça ao fazer explodir a aparente paz interior.

Florência Rodriguez consegue renovar esse surrealismo narrativo. Desde o início da memória pré-histórica, o homem tem recorrido ao mito para entender o incompreensível. Desde os grafismos nas cavernas até as primeiras fábulas milenárias, passando pelas parábolas bíblicas e as anedotas protagonizadas pelos heróis da antiguidade. Ela cita várias referências; “os gregos, a ficção científica, as histórias místicas, minhas invenções”.

A invenção como arcobotante (construção exterior, nos edifícios góticos, que termina em arco de círculo e serve de apoio a uma parede ou abóbada) da vida real vem sendo utilizada na arte com fins bem distintos, geralmente ligando-se ao ato religioso, à chamada da fé. É com o surrealismo, no começo do século, que o criador dá asas à sua psique, ao seu inconsciente, e materializa seus sonhos em uma tela. Sem moralismos, os contos “irreais” tornaram-se alimento para a mente cinza do receptor, do expectador. A sugestão que emana da razão (ou de sua ausência) também tem sido explorada desde os primórdios do cinema, com vários filmes que, enquanto relatos da antigüidade, bem podiam anteceder às cenas de Florência.

Seja qual for o relato preciso da artista, assim como seu objetivo, o certo é que somos levados a observar perplexo suas magníficas fotografias e a estranha beleza que retratam. É impossível voltar a entrar em uma casa vazia sem ser atacado, ainda que inconscientemente, por algum dos fotogramas indeléveis dessa fabuladora do invisível.

Autor: Juan José Santos.


3 comentários:

Buuna disse...

esse trabalho... é simplismente.. perfeito.... instigante... ;__;

Raisa disse...

a verdade é que o projeto americanidade só vem nos deixando orgulhosos!

Cecília Shi disse...

de fato.. adorei a Florencia e demais o Hamilton.. estou ansiosa por sua vinda.. nao eh mesmo Raichele? rs...